Sobre ALVEX Alentejo

ALVEX, Alentejo, Portugal

Oráculos

1.
«Antigamente, os áugures desenhavam no ar, com gestos solenes e abertos, o limitado espaço quadrado dentro do qual se podiam ler presságios e maravilhas. Só por essa ‘janela’, quando atravessada pelo vôo dos pássaros, podiam os sacerdotes interpretar os sinais que encorajavam feitos heróicos ou auspiciavam generosas conquistas em oráculos enigmáticos.

O pátio interior dos edifícios consagrados aos deuses desenhava igualmente um recorte do céu, a partir do qual se contemplavam as linhas do cosmos e se perscrutava o destino do mundo. Dessa acção de olhar e orar, elevando os olhos da terra para o céu, nasce a própria designação do templo: lugar de inquirição cósmica sobre o destino dos homens e de contemplação da vontade dos deuses.

2.
No nosso mundo, as remediações que nos levaram dos diferentes média aos suportes digitais parecem em tudo afastadas das condições de um espaço oracular. Que oráculo pode gerar um enigma na era web3? A lentidão do vôo dos pássaros é compatível com o imediatismo das comunicações 5G? E a fábrica de eventos mediáticos pode ainda ser compatível com a interrogação do destino que levava os consulentes ao templo para interpelar os áugures e inquirir sobre o destino?

3.
Maite Cajaraville criou VEXTRE (Virtual Extremadura) para exibição no MEIAC em 2021. Projeto híbrido, entre a realidade expandida e a instalação plástica, ele interpela de maneira rigorosa o território do qual recolhe os elementos que o geram. Com efeito, a escultura exibida em VEXTRE é o resultado de uma exaustiva leitura social, cultural e económica do território, cujos dados, distribuídos por critérios precisos, geram um objeto digital que Maite Cajaraville cria em cerâmica com recurso a uma impressora 3D.

4.
Podemos dizer sem errar que a escultura se apresenta como uma voz oracular. Críptica como o oráculo de outros tempos, nela falam as matérias primas da região, as razões demográficas, as constrições económicas, apresentando o território numa eloquente tradução 3D. E, como num oráculo, não são as respostas que importam, mas o que fazemos com elas. Desde logo, a possibilidade o espectador desmontar os estereótipos e ideias feitas sobre o território, configura uma eficácia política assinalável. A responsabilidade perante esta «escultura do futuro», como certeiramente lhe chamou Natalia Piñuel Martín, é partilhada pela artista com as instituições e o espectador, todos envolvidos nesta reformulação do imaginário colectivo do território.

5.
Em Portugal, acrescentámos o Alentejo a VEXTRE. Exposição realizada no âmbito do protocolo de cooperação transfronteiriça com o MEIAC, a transformação de VEXTRE em ALVEX — Alentejo-virtual-Extremadura — resulta do aprofundamento do diálogo entre as instituições e a artista, e permite alargar aos dois territórios envolvidos a investigação e a criação do dispositivo oracular. Na sala, o visitante vain encontrar as duas esculturas, num frente a frente silencioso. Idênticas no processo de criação, contíguas como os territórios que representam, eloquentemente crípticas como só os oráculos sabem ser. Elas desafiam-nos a imaginar os diálogos por vir ao mesmo tempo que nos abrem as portas à informação. Não será esta, também, a matéria de que se fazem os sonhos?».

José Alberto Ferreira, diretor artistico do Centro de Arte e Cultura da Fundação Eugénio de Almeida

Esculturas do futuro para o Alentejo

O projeto artístico ALVEX, irmão siamês ‘na fronteira’ da VEXTRE, está em andamento. Al(entejo) V(irtual) Ex(tremadura) é o novo fruto da colaboração entre Maite Cajaraville, o Centro de Arte e Cultura da Fundação Eugénio de Almeida (FEA) e o Museu Extremeño e Ibero-Americano de Arte Contemporânea (MEIAC). A ALVEX traduz para a linguagem da arte uma recolha minuciosa e uma análise não menos pontilhista dos dados socioeconómicos do Alentejo português, que, como acontece com VEXTRE, convidan à reflexão sobre os condicionantes do presente e as possibilidades de futuro de toda uma região. O projeto será apresentado no dia 19 de fevereiro no cenário de incomparável beleza da cidade de Évora, e fá-lo-á em grande estilo, pois, nesta ocasião, a peça física 3D e a peça virtual de realidade expandida serão exibidas ao mesmo tempo.

Alentejo, Extremadura. Arte e território(s)

I.
As regiões da Extremadura e do Alentejo convivem num ambiente geográfico, social e cultural único. Um território caracterizado por relações vernaculares de vizinhança entre os habitantes de ambos os lados que gravitam em torno da fronteira que divide Espanha e Portugal. Uma fronteira permeável, que chamamos aqui A Linha, conceito que define esse ambiente ao mesmo tempo físico e emocional, com limites ambíguos. Um território sobrecarregado por um sentimento comum de periferia em que a relação com o outro foi absolutamente necessária para aliviar o sentimento de isolamento do próprio. Um lugar que, fruto dessa condição periférica, enfrenta hoje um complexo processo de desenraizamento coletivo cujas consequências mais imediatas começamos a sentir.

II.
Qual é a realidade atual desta periferia transfronteiriça? Quais são suas necessidades? Como será o futuro de seus habitantes diante de uma globalização cada vez mais agressiva? A cultura pode ajudar a frear o evidente desenvolvimento da desertificação social ao oferecer instrumentos reais para aliviar as necessidades do(s) seu(s) território(s)?

III.
É nesta zona transfronteiriça que se localizam o MEIAC, museu dependente da Junta de Extremadura, e o Centro de Arte e Cultura Fundação Eugénio de Almeida. Dois projetos culturais de alto impacto criados a partir da ideia de território. Duas entidades administrativamente distintas que, com as suas realidades particulares e de arte contemporânea, têm vindo a trabalhar para a promoção social e cultural da Estremadura e do Alentejo. de seus territórios.

IV.
A natural tendência simbiótica fronteiriça permitiu que, após uma série de experiências anteriores esporádicas, em 2018 a Junta de Extremadura e a Fundação Eugénio de Almeida assinassem um Acordo de Colaboração para a troca de projetos expositivos entre o MEIAC e o Centro de Arte e Cultura , com o qual estimular o interesse em conhecer a realidade do outro através do trabalho de artistas atuais relacionados aos seus territórios. Foi formalizada uma aliança necessária entre duas entidades que entendem que a arte contemporânea pode (e deve) ser mais uma peça que contribui para o crescimento do seu território. Um território compartilhado.

V.
Incluído no âmbito deste Acordo de Colaboração, em 2021 foi apresentado no MEIAC de Badajoz o VEXTRE (Extremadura Virtual), um projeto da artista da Extremadura Maite Cajaraville em torno do conceito de realidade expandida do território extremadura, e que, tal como foi contemplado , chegaria a Évora durante os primeiros meses de 2022. Neste curto espaço de tempo, VEXTRE, naturalmente, quase espontaneamente (como quase tudo o que acontece na linha), cresceu seguindo uma lógica assumida aqui para o Alentejo, expandindo a sua narrativa para este território comum, tão carente de visibilidade como unidade estratégica para um crescimento conjunto e sustentável.

VI.
AL(entejo)V(irtual)EX(tremadura) é, sinteticamente, uma paisagem realista do território que alguns de nós habitamos na Extremadura e no Alentejo. Uma visão absolutamente objetiva da natureza, elaborada em um processo demiúrgico-tecnológico em que se moldam os dados extraídos das múltiplas realidades com as quais convivemos. ALVEX (des)materializa a verdade do território e a transfere, assepticamente, para o espectador, oferecendo uma poderosa ferramenta de análise e conhecimento desse todo compartilhado que são as duas regiões e sua linha.

VII.
Esta exposição encerra uma etapa de colaboração entre o MEIAC e o Centro de Arte e Cultura. Esta experiência permitiu-nos introduzir poderosos elementos potenciais para uma reflexão e estudo do nosso futuro mais imediato, a partir dos quais podemos explorar as reais possibilidades que a arte e a cultura contemporâneas podem contribuir para um crescimento global (não globalizado) do nosso território. Da Estremadura e do Alentejo, o MEIAC e o Centro de Arte e Cultura já estão a trabalhar neste próximo passo, confirmando a sua plena relevância como agentes eficazes do desenvolvimento cultural, social e económico das duas regiões no quadro da cooperação transfronteiriça entre Espanha e Portugal.

Francisco T. Cerezo Vacas, técnico de arte e curador do Museu Extremeño e Ibero-Americano de Arte Contemporânea (MEIAC)