Sobre VEXTRE Extremadura

VEXTRE, Extremadura, Espanha

O imaginário popular construiu um relato em torno da natureza cultural da Extremadura que responde a uma série de estereótipos vinculados ao atraso socioeconômico. Historicamente, a região tem sido definida pela sua situação periférica e fronteiriça: um espaço minimamente articulado, de baixa densidade populacional, que responde ao que tem sido denominado como «colonialismo interno» e que, embora ocorra habitualmente sob o binómio metrópole-colônia, aqui acontece dentro dum mesmo território como centro-periférias e cidade-mundo rural. Isso implica diferentes formas de dominação que durante décadas foram visíveis nas grandes explotações latifundísticas e a repressão a que foram submetidas as forças mais progressistas após a Guerra Civil.

Os processos migratórios são uma constante desde o início do século passado, e a identidade cultural tem sido construída no exterior principalmente através de associações e casas regionais: espaços de encontro com fortes laços identitários mas não isentos de críticas, pois perpetuaram as mesmas construções sociais que tinham conhecido antes de partir. É por tanto desde dentro que a verdadeira mudança há de ocorrer. Superadas as desigualdades sociais derivadas da ditadura de Franco, a Extremadura vive de forma diferente, e para continuar com os avanços exige-se também a colaboração da chamada «diáspora extremeña», à qual pertence parte do estamento criativo e onde localiza-se a artista Maite Cajaraville. Esse novo reclamo identitário coloca-se a partir do ato simbólico e político; nem tanto dum ponto de vista administrativo ou que reproduza padrões de outros tempos. Os movimentos migratórios também ocorrem no século XXI entre a cidade e o mundo rural: a vida no campo e nos pequenos núcleos populacionais nada tem a ver com os modos de vida de cinquenta anos atrás. O manifesto sobre o «futurismo rural»* –cunhado pelos investigadores Leandro Pisano e Beatrice Ferrara– coloca um desafio aos actuais discursos capitalistas sobre a ruralidade como um lugar autêntico, utópico, provinciano, tradicional ou estável, onde o anacronismo é idealizado a partir das megalópoles destes territórios . O manifesto compartilha uma nova mensagem baseada em «pertencimento versus alienação, desenvolvimento versus atraso».

VEXTRE é concebido como um mapa emocional tridimensional. Uma viagem criada como abordagem para redescobrir o território que habitamos e subverter essas supostas realidades. A proposta parte da escultura física que Cajaraville desenvolveu com a técnica de impressão 3D em 2017, durante a sua intervenção na primeira edição do programa de cultura contemporânea da Junta de Extremadura “Cáceres Abierto”. A compilação de dados e as novas tecnologias dispõem-se aqui ao serviço da arte contemporânea, e a documentação materializa-se numa peça plástica e orgânica de enorme presença e beleza estética. VEXTRE evolui em 2021 para um meio criado inteiramente em formato digital. Estamos perante uma exposição híbrida que interage com o público / espectador através do dispositivo móvel, gerando novos ambientes para o museu e para quem o visita. A peça, criada expressamente para o MEIAC, é um objecto virtual tridimensional produzido com meios tecnológicos após um exaustivo trabalho de documentação e tratamento de dados em torno de diversos parâmetros que respondem aos valores socioeconómicos da Extremadura –como o PIB, os índices de desemprego ou mobilidade da população–. Surgem desta forma narrativas que facilitam o diálogo e o pensamento crítico junto do público desde a opinião de cada pessoa. Os dados fluem nesta peça da mesma forma que a cultura é transmitida, evolui e é compartilhada por meio de processos sociais e educacionais, construindo assim a identidade. A exposição pretende redescobrir o território com uma mensagem de urgência sobre o cuidado do entorno e o seu pessoal face ao turismo massivo derivado de práticas consumistas, além de reformular preconceitos internalizados com uma imagem tecnológica e avançada, o que interfere nos padrões tradicionais com a ideia de um novo mapa de dados da Extremadura.

A paisagem desenhada pela artista interroga de forma permanente a natureza, a cidade e o código como exemplo da inter-relação entre arte, ciência e tecnologia. A proposta adiciona uma iniciativa online com a qual se pretende quebrar a barreira clássica do espectador passivo, criando um perfil na rede social Instagram através do perfil @vextre_extremadura. Pretende-se atingir um público amplo e diversificado para iniciar o debate ainda antes da inauguração e lançar um exercício de reflexão: Qual é a perceção que se tem da Estremadura quando vista a partir exterior e, sobretudo, como é que os estremenhos se olham a si mesmos? Além de ultrapassar as fronteiras físicas do museu, Cajaraville convida-nos a posicionar a Extremadura no mundo graças aos nossos telemóveis, avançando outras formas possíveis de exposição artística, quebrando as fronteiras do cubo branco. Este carácter próprio e transfronteiriço do território Extremadura leva ao alargamento da proposta à região limítrofe do Alentejo português, e será na Fundação Eugénio de Almeida, na cidade de Évora, onde VEXTRE reviva, provocando um novo diálogo e uma aproximação com os visitantes dessa cidade.

Falar no trabalho de Maite Cajaraville supõe reivindicar uma das artistas pioneiros da arte digital na Espanha. É uma trajetória que funciona como um contínuo work in progress, onde se integram narrativas de não-ficção nos diferentes projetos que trabalham em torno do media art. Uma característica fundamental ao longo de toda a sua trajetória, desde o início na década dos anos 90, é a capacidade de reverter imaginários e condicionamentos sociais por meio da inter-relação com o público, com a utilização de dispositivos contemporâneos à nossa realidade desde os contextos da arte contemporânea. Com VEXTRE vai mais longe, com a construção duma escultura do futuro e a criação duma Extremadura alargada com a que refletar os interesses e as preocupações do agora nesta terra.

*Pisano, Leandro & Ferrara, Beatrice. The Manifesto of Rural Futurism (2018)

Texto curatorial de Natalia Piñuel Martín, historiadora e produtora de arte, do catalogue de VEXTRE, Extremadura en Sitios, MEIAC, 2021